ABC Psicologia do Desporto

ABC da Psicologia do Desporto

“O Desenvolvimento a Longo Prazo do Jovem Atleta”

António Rosado

O desenvolvimento do atleta a longo prazo envolve a vivência de um conjunto de etapas ou estágios. O respeito pelas características fundamentais de cada etapa é uma condição para que esse desenvolvimento ocorra de forma adequada e conduza aos níveis mais elevados de prática. O conhecimento dos pais acerca desses estágios e das suas caraterísticas fundamentais é essencial na sua contribuição para o futuro atlético dos seus filhos.

De acordo com a organização Canadian Sport For Life essas etapas são as seguintes:

0-6 Anos – Início Ativo

O objetivo da prática desportiva para o seu filho, neste intervalo etário, é ajudá-lo a adquirir a sua Alfabetização no plano do desenvolvimento motor. Uma criança fisicamente alfabetizada desenvolveu as habilidades motoras fundamentais, é ativo, empenhado, confiante em si mesmo e na sua competência para aprender e realizar os movimentos e habilidades que caracterizam as atividades físicas ou desportivas em que se envolve. Aprender o ABC da agilidade, do equilíbrio e da coordenação, desenvolvendo, deste modo, a capacidade de se mover com confiança e adequação na área das atividades físicas, como do seu desporto ou atividade escolhida, é fundamental na educação de qualquer cidadão e deve começar muito cedo na vida das crianças. Possuir essas habilidades permite que as crianças se sintam bem com a sua participação desportiva.

Como pai de uma criança pequena é imperativo que o coloque num ambiente que ensine os movimentos e habilidades de alfabetização físico-desportiva. Exigir uma Educação Física escolar de qualidade é fundamental.  Isso não significa que essa oferta seja suficiente e que não posso oferecer-lhe outras possibilidades de desenvolvimento motor. Apenas programas desportivos organizados ou formais não são suficientes. Qualquer forma de atividade física é adequada: brincar, jogar, correr e saltar, são exemplos do que se deve promover na escola e fora da escola. Atividades físicas com a família, com os irmãos, com os amigos, quer em espaços formais quer nos espaços mais informais, são essenciais.

Dê aos seus filhos um início ativo! As crianças até aos 6 anos precisam de se envolver em atividades físicas diárias, num ambiente ativo, não necessariamente organizado nem particularmente supervisionado.  Não só desenvolverão a coordenação motora e as habilidades motoras básicas, mas potenciarão o desenvolvimento da função cerebral, da postura e do equilíbrio. As práticas motoras também ajudam as crianças a tornarem-se confiantes,  a ganhar controlo emocional e a desenvolver habilidades sociais e a imaginação, ao mesmo tempo que reduzem o estresse e melhoram o sono. Uma grande variedade de atividades físicas deve ser introduzida e, o mais importante, essa fase deve ser vista pelas crianças como partes divertidas e atraentes do seu dia.

Como se sabe, o cérebro desenvolve-se rapidamente durante os primeiros três anos de vida, formando caminhos e conexões muito mais rapidamente do que em anos posteriores. Como resultado, um início ativo para o desenvolvimento motor melhora a coordenação e o equilíbrio, além de ajudar as crianças a aprender de forma mais eficiente. A atividade física melhora o desenvolvimento intelectual e emocional, ao mesmo tempo que constrói músculos e ossos fortes e promove um peso e um estilo de vida saudáveis.

É crítico, nesta fase, que os pais assegurem que a atividade seja uma atividade divertida, segura (física e psicologicamente) e voluntária. As crianças não devem ser “obrigadas” a participar. Também é importante lembrar-se de quão criativas são as crianças nesta idade, de modo que as atividades devem incentivar a imaginação e a experimentação.

É, também, uma excelente oportunidade para os pais se juntarem aos seus filhos nessa atividade; correr, saltar e rir ao seu lado é uma oportunidade única a não perder. Poder ajudá-los a aprender a fazer as habilidades e técnicas básicas pode ser, também, muito enriquecedor para os pais.

As crianças aprendem fazendo e imitando o que os outros fazem; desenvolvem as suas habilidades motoras básicas quando são encorajadas a fazê-lo, cercadas por crianças e adultos ativos e comprometidos para modelar e proporcionar um ambiente seguro para experimentar aprender coisas novas.

Finalmente, lembre-se de que as crianças pequenas podem ser frágeis e precisam ser tratadas com cuidado, com paciência e muito encorajamento. Certifique-se de que elas estão a sorrir quando chegam, sorriem quando estão a jogar e sorriem quando saem, implorando por ficar.

7-9 Anos – Estágio FUNdamental

Durante o estágio FUNdamental, as raparigas de 6-8 anos e os rapazes de 6-9 anos devem ser expostos a uma grande variedade de experiências atléticas, pois esta é a segunda fase do desenvolvimento da alfabetização física. Essas atividades podem já ser mais estruturadas, mas ainda se devem concentrar no FUN (divertimento) e os jogos e atividades competitivas devem ser reduzidos ao mínimo.

As crianças, nesta etapa, ainda são bastante egocêntricas, o que significa que as suas atividades desportivas devem ser feitas em pequenos grupos, ou individualmente, com participação constante e ativa. Conseguir níveis atencionais adequados exige desafios constantes, grande variabilidade de atividades e exercícios e muito ludismo no treino.

No estágio FUNdamental aconselha-se praticar um desporto preferido, participando 2-3 vezes por semana, mas também se aconselha que façam outros desportos ou atividades três vezes por semana. Esta abordagem ajuda a dominar todos os aspetos da alfabetização motora e mantém a criança interessada e comprometida.

Se o seu filho está envolvido em alguns desportos competitivos nesta fase, lembre-se de que o seu foco, enquanto atleta, não deve ser na classificação ou no resultado, mas mais em estar com os amigos e em se divertir e aprender. Certifique-se, também, de que o seu foco, como pai, também é esse. Ajude as crianças a divertirem-se e a desenvolverem autoconfiança nas suas capacidades e você já ganhou, independentemente de qualquer resultado competitivo que seja obtido.

8-12 Anos – Aprender a Treinar

A terceira etapa do desenvolvimento atlético de longo prazo é uma fase de aprender a treinar. Inclui as raparigas de 8 a 11 anos e os rapazes entre os 9 e os 12 anos. Este é o período imediatamente antes de as crianças atingirem a puberdade e o seu salto de crescimento.

Esta etapa é, também, vista como a Era de Ouro do desenvolvimento de competências motoras. Os jovens desta idade começam a converter os seus movimentos fundamentais em habilidades desportivas básicas e específicas. É, também, o melhor momento para aprender as habilidades específicas do seu desporto.

É um período sensível de desenvolvimento acelerado de habilidades coordenativas e técnicas e não deve ser negligenciado ou alterado para enfatizar demasiado a competição. Este período é, também, um ótimo momento para desenvolver a força, a flexibilidade e alguma resistência, mas através de atividades divertidas e treinamento com o próprio peso corporal, em regimes de treino fisicamente pouco exigentes. Um desenvolvimento multilateral e eclético é fundamental nesta etapa.

A ênfase deve continuar a ser o treino e a aprendizagem e menos a competição, pelo menos numa proporção de prática de 2 ou 3 para 1 na relação treinos/competições.

A prática de mais do que uma atividade física ou desportiva continua a ser aconselhada.

11-16 anos – Treinar para Treinar

Esta etapa (raparigas, 11-15; rapazes, 12-16) é o primeiro de três estágios no treino orientado para o alto desempenho e para o desenvolvimento atlético para a competição. Este estágio começa no início da puberdade e termina na conclusão da adolescência.

É nesta etapa que os atletas se especializam num desporto e aumentam, significativamente, as suas horas de treino. É um momento para aprimoramento e consolidação de habilidades desportivas específicas, para a construção de uma base aeróbica e para o desenvolvimento geral do potencial atlético de longo prazo. Também é crucial que este estágio seja usado para trabalhar a flexibilidade e a força.

É crucial lembrar que “Vencer” deve permanecer secundário face a “Aprender Habilidades e Promover o Desenvolvimento Físico”, embora a competição possa ser aumentada neste momento, já que os atletas avaliam as suas habilidades contra outros competidores e alguns níveis de rendimento desportivo já são elevados. A ênfase, no entanto, ainda deve estar no Desenvolvimento, na Educação e na Aprendizagem, e não deve ser medido por recordes, ganhos e perdas competitivas.

Os treinadores e os pais também devem ser cautelosos e conscientes dos sinais de excesso de treino. Os jovens, nesta etapa, são suscetíveis a uma variedade de lesões. Os adultos responsáveis ​​devem monitorizar a sua saúde e o seu nível de atividade e não ter medo de “desligá-los” por um tempo, se começarem a apresentar sintomas de excesso de treino, como lesões.

É muito importante, durante esta etapa, reconhecer e explicar aos atletas que a sua coordenação e os movimentos podem ser influenciados pelo seu salto de crescimento rápido (característico da puberdade) e que isso é perfeitamente normal; os treinadores e os pais devem esclarecer que o efeito negativo sobre suas habilidades físicas e motoras é natural e passará.

O índice de treino/competição deve ser de, aproximadamente, 60:40 e, novamente, a competição deve ser usada numa lógica de aprender a competir; para melhorar a técnica, a compreensão tática e a capacidade física e não centrar-se nos resultados competitivos como um valor absoluto. Concentre-se no desempenho do seu filho, no esforço, no empenhamento, na atenção/concentração, isto é, na qualidade do processo, e não na classificação ou resultado.  

Treinar para competir e treinar para ganhar

As duas etapas finais do desenvolvimento atlético juvenil são Treinar para Competir e Treinar para Ganhar.

Treinar para Competir (raparigas, 15-21; rapazes, 16-23) é a etapa em que os atletas escolhem um desporto específico para se tornarem praticantes de elite, com foco em treino de alto volume e alta repetição.

Estes praticantes têm em mente objetivos de competição de nível nacional e internacional, muitas vezes, com uma expressão profissional. Além do seu treino específico, também precisam receber as orientações necessárias sobre nutrição, psicologia, recuperação e prevenção e gestão de lesões.

Os atletas devem estabelecer calendários adequados de periodização, planos de competição e recuperação e concentrarem-se em performances consistentes e de alto nível.

Os atletas no estágio Treinar para Competir não estão apenas a maximizar as suas habilidades físicas, mentais e psicológicas, mas, também, estão a aprender a aprender a lidar com elementos externos, como viagens, media, espectadores e adversários difíceis. Isto é treino de alto nível, um compromisso pesado e não a experiência desportiva típica para a grande maioria dos atletas.

Treinar para ganhar é a etapa final onde os atletas são competidores em tempo integral, procurando conquistar eventos nacionais e internacionais, praticando profissionalmente ou ao mais alto nível que o desporto permite. Dedicam-se à busca não só da excelência, mas, também, do sucesso em termos de medalhas e pódios.

Os atletas, nesta fase, geralmente, tem idades acima dos 18 anos. O treino de habilidades técnicas e táticas e o crescimento físico estão completos, ou perto dele, e agora a centração é nos resultados. Equipas técnicas especializadas ajudam estes atletas nesse percurso mas o apoio dos pais, sobretudo emocional, não deixa de ser necessário.

Ativo para a vida

Um participante pode optar, após a etapa do Treino para Ganhar, por fazer competição de “manutenção” ou por fazer desporto, ou outra atividade física, para se manter em forma sem um verdadeiro envolvimento competitivo. Os indivíduos que desejam ser fisicamente ativos estão no estágio “Ativo para a Vida”. Estas atividades incluem toda a atividade física (como caminhadas, jardinagem, yoga, aeróbica, atividades de grupo, etc.) bem como a participação em desportos não organizados. Espera-se que um adulto participe num mínimo de 150 minutos de atividade física moderada e vigorosa por semana para manter níveis adequados de saúde. Muitos ex-atletas participam, ainda, como treinadores, instrutores, árbitros ou dirigentes e daí resultam benefícios muito significativos para o seu enriquecimento pessoal e social.

Afinal os nossos filhos também serão adultos (e pais!) e, também, nestas dimensões, devemos dar o exemplo.

Publicado a 3 de Julho de 2017

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ABC da Psicologia do Desporto

“O valor da competição em crianças e jovens”

António Rosado

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Muitos pais, legitimamente, perguntam se a competição desportiva fará mal aos filhos. Porque devem as crianças e os jovens competir, passar por aquelas situações de estresse e de nervosismo? Será a competição positiva para o seu desenvolvimento?

Muitos respondem que não ou têm muitas dúvidas sobre o seu valor educativo. Pelo contrário, também existem pais que consideram a competição fundamental na medida em que prepara os seus filhos para a vida “real”, vista como altamente competitiva.

Na realidade, a competição desportiva não é, em si mesma, boa ou má. Depende do uso que se faz dela, da forma como a encaramos e do modo como lidamos com ela.
Se colocarmos a tónica no ganhar, no resultado, numa lógica de que o que importa é ser o melhor, o primeiro, então essa participação pode ser muito alienante.
Há, na nossa cultura, muito espaço para ser bem-sucedido e há coisas mais importantes do que ser o melhor.
Não é verdade, também, que a vida seja só competição; talvez o mundo real não seja assim tão competitivo e a própria competição na sociedade não seja sempre do tipo “salve-se quem puder”. Há, na nossa vida em sociedade, muita colaboração, muita solidariedade, muito trabalho em equipa.


Muita da competição que é verdadeiramente útil nem é com os outros, é consigo mesmo: transformar-se numa melhor versão de si mesmo.


Algumas razões podem ajudar a valorizar a competição como um instrumento de apoio ao desenvolvimento das crianças:


1. A competição impele-os a dar o seu melhor. O resultado competitivo constitui uma motivação extra para se ultrapassarem e atingirem a excelência. Perseguir a excelência, dar o nosso melhor, é uma aprendizagem fundamental para a vida.


2. Quando a competição está no horizonte trabalha-se mais e mais depressa, aprende-se a ritmos mais elevados e isso leva as crianças a conseguir resultados de melhor nível. Na competição procuramos ultrapassar-nos e, muitas vezes, ficamos surpreendidos com o que conseguimos alcançar. A competição encoraja a fazer o que nos parece impossível.


3. A competição ensina-os a controlar os seus “nervos”. Quando se afastam da sua zona de conforto, quando se sentem pressionados, é natural apresentarem elevados níveis de nervosismo, elevados níveis emocionais. A competição obriga-os a gerir essas emoções, esse desconforto, e essa aprendizagem pode ser transferida para outros ambientes da sua vida social (testes, exames, etc.).


4. Aprendem a não ter medo da competição. Muitas vezes, as crianças temem as competições, antecipando-as com receios que não se justificam. Muitas vezes quando competem, ou após algumas competições, verificam que não só não é tão assustador como parecia como pode ser um momento de extrema alegria. Aprender a competir de forma saudável é fundamental.


5. A competição ensina-os a correr riscos. Correr riscos permite o desenvolvimento da confiança para fazer coisas que são difíceis e desconfortáveis. Bastante útil na vida do dia-a-dia…


6. A competição ensina-os a lidar com coisas que não correram como pretendiam ou previram. Ás vezes trabalham muito e perdem; outras, ganham mas não fizeram o que poderiam ter feito. Ultrapassar as dificuldades significa aprender a serem resilientes, a ser perseverantes.


7. A competição ensina-os a definir objetivos e a lutar por eles. Embora os objectivos sejam definidos antes da competição, esta é que permite definir o nível de progresso na direção da sua concretização.


8. A competição ensina-os a actuar de acordo com regras. Aprender a responder às regras e a desenvolver estratégias para as colocar ao serviço da concretização dos seus objectivos é importante. Viver num ambiente com regras explícitas, iguais para todos, num ambiente de respeito pelos outros, é uma aprendizagem social importante.


9. A competição ensina-os a ganhar e a perder, com elegância (fair-play), com dignidade e auto-respeito. Ensina a lidar com os sentimentos de orgulho e de desapontamento e promove o processo de lidar com as emoções.


10. A competição ensina o valor do empenhamento, da perseverança, da persistência, na concretização de objetivos e de actividades de que gostamos muito. Uma ética do trabalho continuado em actividades que são fonte de prazer é uma aprendizagem fundamental para a vida adulta.


11. A competição constrói a auto-estima, a percepção do seu valor pessoal. A auto-estima é qualquer coisa que precisa de ser conquistada. Quando desenvolvemos um talento, nos aperfeiçoamos numa área, reforçamos o nosso valor próprio. Quando falhamos e não desistimos, reforçamos a nossa auto-confiança.


12. A competição aumenta o sentimento de pertença. Permite-lhes pertencer a uma nova comunidade, ser parte de uma equipa, com colegas, treinadores, dirigentes, jovens e adultos, apoiantes e com interesses e valores similares aos seus. As viagens, o contacto e a interacção com outras pessoas que de outro modo não conheceriam é um ganho importante. Essas redes sociais são decisivas no desenvolvimento social dos jovens.


13. A competição é divertida. As crianças gostam de jogar, de competir, de ser parte de uma equipa, de participar em toda a festividade e alegria que as competições comportam.


14. A competição melhora os resultados escolares. As crianças que fazem desporto apresentam melhores resultados escolares, desistem menos da escola e têm melhor aproveitamento.

Publicado a 4 de Junho de 2017